ÁGUA DE COR  2022 

Água de cor: as danças das mulheres da Nação Ijexá é um projeto artístico de animação a aquarela da artista Ilana Paterman Brasil, feito em parceria com o Culto Afro Corte Real da Nação Ijexá, casa de candomblé localizada no Parque Amorim, Belford Roxo, Rio de Janeiro.

Dentro dos saberes de terreiro estão as danças, que traduzem em movimentos os mitos iorubás, atualizando-se nos corpos, e seguindo de forma fluida os toques dos atabaques – mito, som e gesto tornam-se uma coisa só, difícil de transcrever em palavras. Neste contexto surge o projeto, com o intuito de comunicar estes saberes. O foco está nas mulheres: são seis as principais Iabás (Oxum, Obá, Euá, Nanã, Iemanjá e Iansã) e, somando-se a elas, a Colondina, que trazem nos gestos inúmeras possibilidades de manifestação do feminino – referências essenciais em um momento de transformação para as mulheres, que buscam saídas para desenvolver potências e desejos. Os arquétipos femininos iorubás resistiram à barbárie civilizatória e ao domínio colonial, preservando outras formas de ser e de agir enquanto mulher na sociedade.

 

A técnica de rotoscopia permite que o movimento se revele ao transformar vídeo em desenho – o corpo dançante, em traços e cores, torna-se o único elemento na tela, direcionando a comunicação expressiva dos gestos. A utilização do processo artesanal com aquarela surge como consequência das vivências em terreiros: o fazer manual e o contato direto com materiais naturais inspiraram a escolha por essa linguagem. Além disso, a água – base da aquarela – é ritualmente associada às mulheres.

Cada animação é composta por centenas de desenhos que, quadro a quadro, recriam os gestos expressivos das filhas de Pai Zezito de Oxum, líder da Corte Real da Nação Ijexá. Silvia, Mara, Ângela, Rosani, Eunice, Solange e Solemar dançaram para duas câmeras, em uma manhã de agosto de 2021, e tornaram-se aquarelas. Estes desenhos foram fotografados em diferentes chãos e,  assim, viraram movimento novamente.

 

O livro é composto por uma seleção de desenhos de cada dança, permitindo a apreciação de aquarelas em diferentes escalas – incluindo uma seleção de 36 desenhos lado a lado, a fim de visualizar os passos das animações. Também habitam esta publicação textos de Ricardo Alves, Ogan da Oxum de Pai Zezito, de Luiz Antonio Simas, historiador que a todos encanta com escritas miúdas, e da artista Ilana Paterman Brasil, que relata partes do processo de realização de Água de Cor. 

 

Que os desenhos e os movimentos aquarelados de Água de cor possam despertar as potências de uma vida que dança ao som dos tambores.

MITO, RITO E ANCESTRALIDADE EM AQUARELAS

Luiz Antonio Simas

Orixás são fragmentos encantados da natureza. Era dessa maneira que o Oluô – intérprete do oráculo – Agenor Miranda Rocha, o pai Agenor, acariciava poeticamente o que escapa de qualquer definição mais precisa: a essência das divindades africanas que atravessaram o Atlântico nos porões dos navios negreiros acompanhando o povo escravizado.  Seguindo a trilha aberta pelo sacerdote, podemos dizer que se orixás são fragmentos da natureza em que ancestrais se encantaram - e a natureza constantemente se movimenta, mesmo quando silencia - as deusas e os deuses dançam.

Há ainda outro elemento fundamental nessa história. As danças são evocadas pelos toques diversos do tambor (que também são corpos encantados) em ritos que rompem limites entre carne, sangue, ossos, couros, baquetas de percussão, mãos calejadas, anáguas, saias rendadas, pulseiras, colares de contas, palhas trançadas, leques, espelhos e coroas. Numa dimensão em que passado, presente e futuro se embaralham no tempo espiralado do caracol de Exu, tudo se funde e já não há dicotomia possível, mas integração, entre o sagrado e o profano, o sol da clarividência e a lua sombreada do mistério.

É no meio dessa encruzilhada de sentidos, como padê arriado ao dono do corpo, que Água de cor: as danças das mulheres da Nação Ijexá, o belíssimo trabalho de animação à aquarela de Ilana Paterman Brasil, descortina mundos. Fruto do encontro da artista com o Culto Afro Corte Real da Nação Ijexá, casa de candomblé localizada em Belford Roxo, Rio de Janeiro, o que vemos aqui é resultado de uma artesania minuciosa que rompe os limites das margens e mergulha nas águas mais profundas do alumbramento. A criação artística, afinal, também é ritual de encantação da vida: xirê.

Elemento marcante da proposta de Ilana, e recorte fundamental do que aqui se apresenta, é a dimensão matriarcal do trabalho: quem dança nas aquarelas é a força criadora e incontornável do poder feminino, expressa nas iabás Oxum, Obá, Euá, Iemanjá, Iansã e Nanã. Acompanhando as mães primordiais, surge a Colondina, entidade misteriosa que encarna a volúpia e a autonomia da mulher que é senhora do próprio corpo e dos seus desejos.

O trabalho da artista – são mais de 2400 aquarelas – não seria possível sem um mergulho minucioso no conjunto de itans (relatos míticos) sobre as iabás retratadas. O candomblé se fundamenta em dois pontos fundamentais e complementares: o mito e o rito. Todo relato mítico guarda sentidos múltiplos, expressos em uma poética que visa modelar condutas e regular a vida em comunidade. O mito traz o tempo da ancestralidade para as pertinências do hoje e repercute a lição maior: só é ancestral aquilo que é contemporâneo; aquilo que não é sujeito às vicissitudes do tempo porque já é constituidor da própria ideia de temporalidade.

Os ritos, por sua vez, dramatizam os mitos em cantos, danças, sonoridades, performances corporais. Ao vivenciar o rito, a comunidade presentifica o mito, se recorda dele e apreende modelos de conduta que tornam a vida em comunhão uma tarefa possível. Sem o rito, o mito cai em esquecimento. Sem o mito, o rito perde o sentido exemplar.

Só a escuta da poética dos mitos e a entrega à beleza dos mitos seria capaz de alicerçar tudo o que essas aquarelas expressam: a dança suave, sedutora e altaneira de Oxum; o bailado de maré de Iemanjá; o rimbombo das tormentosas pororocas da guerreira Obá; o poder feiticeiro de Euá; a lentidão eterna e cheia de sapiência dos arrepios de Nanã; o corpo que relampeia, comanda os ventos e conduz os eguns ao som do ilú de Iansã; a rua presentificada no sacolejo mundano de quem é senhora de si, Colondina.

Que o belíssimo voo de Ilana possa, ainda, ser percebido como aquilo que me parece ter de mais forte: ele é tributário de uma sofisticada aventura cosmogônica, filosófica, estética, política, poética, feminina, preta, plural, capaz de inventar a vida onde, aparentemente, só a morte poderia campear.

O candomblé, afinal, afirma fundamentalmente isso: a vitória da vida sobre a morte que se concretiza em arrepios de encantamento, toques de tambor e no bailar dos corpos que ventam nas dobras do tempo, da beleza e do mistério: arte.

Axé!

PARTICIPANTES

Concepção e criação:

Ilana Paterman Brasil

Assistência de produção:

Carol Vinagre

Maria Navarro

Consultoria:

Pai Zezito de Oxum

Gravação de áudio:

Dudu Falcão da Rocha

Marlanf Barreto

Masterização:

Vinicius Araújo

Dançarinas: 

Eunice Inácia de Jesus
Rosani Barbosa Santiago
Angela Maria Aparecida L. de Paiva
Mara Shyrlei de Andrade Ramos
Solange Maria Rodrigues Santiago
Solemar Maria Munford
Silvia Lilian Rodrigues

Percussionistas:

Ricardo Oliveira Rodrigues Alves
Patrick Wualassy Rodrigues Alves
Derick Douglas Rodrigues Alves
Marcelo Henrique Benjamim Antonio

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Silvia e a dança de Colondina

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Angela e a dança de Obá

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Eunice dançando para Nanã

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Mara e a dança da Oxum

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Rosani dançando para Euá

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Solange e a dança de Iemanjá

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Solemar dançando para Iansã

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